Wednesday, October 22, 2008

Coorg - Arrepios e "Coincidências"

Durante a conferência da AIESEC em Pondicherry, além de muitas outras pessoas conheci a Raquel, uma Portuguesa, filha de pai africano (Cabo Verde) e mãe Brasileira. Pode-se dizer que a mistura deu muito certo... Mas to falando dessa tuga, porque ela foi o ponto de partida pra uma viagem inesquecível. 

Depois da conferência, a Ra quis apresentar os trainees que ela havia conhecido para suas colegas de casa. Organizamos um jantar num restaurantezinho em Frazier Town, norte de Bangalore. Risadas, boa comida, bate-papo... e de repente a Rumela (que mora com a Ra) diz: “Ah estamos indo pra Coorg neste fim de semana”. – sem nem pensar se estava sendo inconveniente, disse: EU QUERO IR!! 

Reagi assim, porque a Mari (de Santos) estava louca pra fazer sua primeira viagem na Índia, tinha conseguido liberação no trabalho, mas de última hora teve sua viagem cancelada. Então acrescentei: E tem uma amiga que com certeza vai querer ir junto! Rumela foi sincera e disse que não havia problema nenhum irmos, mas seria quase impossível achar passagens...

No dia seguinte, falei com a Mari e é claro que ela animou. Coorg é uma região serrana conhecida pela vida selvagem e pelas suas belíssimas matas e rios de corredeira. Ficar no meio do mato, respirar ar puro e caminhar pelo verde – era tudo que queríamos... Fui comprar a passagem, rezando para que ainda tivesse, qualquer uma, so queria chegar lá.

Consegui as passagens, não tinha mais lugares juntos, mas isso seria pedir demais. Confirmei com a Ra e com a Rumela que estávamos indo... A Rumela havia dito que pegariam o ônibus na estação Majestic, no meu bilhete estava escrito estação Kempegowda, então nos encontraríamos em Coorg pela manhã.

Mas chegada a hora de embarcar, quando entramos no ônibus... Por coincidência havia comprado passagens exatamente no mesmo ônibus e os assentos eram todos próximos! Majestic e Kempegowda é a mesma coisa, como se um fosse o nome oficial e o outro um apelido carinhoso... Estava formado o grupo da viagem de Coorg: eu, Ra, Rumela, Mari, Camila e Deepak.

Cansado por causa da stressante semana no trabalho, dormi quase a viagem toda, ou pelo menos tentei. Chegamos de madrugada e o Bopu nos buscou de jipe. Bopu é primo do Deepak e guia turístico por lá. Ele nos levou a um lugar provisório, para esperarmos o amanhecer e então seguir para nossa pousada.

Ficamos num quartinho escuro e úmido, cochilamos como foi possível e somente ao acordar pudemos perceber onde estávamos. Era uma casa grande, no meio da serra. Neblina e cheirinho de mato molhado... A dona da casa, uma senhora cheia de energia e bom humor, que abriu um sorriso largo quando soube que eu e a Mari éramos brasileiros – ela havia passado umas férias no Nordeste.

Embarcamos no jipe novamente, agora rumo à pousada. Sobe serra, desce serra, e entra em buraco, enquanto nossas pernas se entrelaçavam na traseira do jipe, tantando aproveitar todo o espaço possível.

O jipe não chega até a pousada, tem que parar antes e então temos que caminhar. Descemos um morro íngreme, atravessamos uma plantação de arroz, pulamos uma cerca, atravessamos uma ponte de bambu sobre um riacho e chegamos. Que maravilha! No meio do NADA uma casinha charmosa, de cimento, madeira e grandes janelas de vidro – para aproveitar a vista para a imensidão do verde de Coorg. Quartos espaçosos, e uma área comum com colchões e almofadas no segundo andar, perfeito!

Demos uma refrescada, trocamos de roupa e embarcamos no jipe para começar as aventuras... O plano era fazer um Rafting! Sobe serra, desce serra e uma paisagem mais maravilhosa que a outra – e verde, muito verde! As plantações de café e de chá dão diferentes tonalidades e contrastam com os coqueirais e a mata fechada.

Chegando no lugar do Rafting soubemos que teríamos que esperar. Sem problema, um senhor (que eu esqueci o nome) dono do lugar nos acompanhou por uma caminhada em meio às plantações de café. Com fome, almoçamos num lugar muito, muito simples à beira do rio. Comer com as mãos e super apimentado!

Ao voltar, esperamos mais um pouquinho e chegou a hora! Os instrutores nepalenses nos separaram em 2 botes. Recebemos as instruções e simulamos o trabalho da equipe em terra, depois na água. Tínhamos que obedecer a comandos específicos em determinados momentos: forward team, over right, over left, get down!

O rafting foi muito bom! Bem emocionante, mas poderia ser mais... O rio deveria estar mais cheio por causa da monçoes, mas a chura não veio como prevista. Mesmo assim foram muito divertidas as quedas d’agua que passamos.

Depois do rafting, passamos na cidade pra comprar bebidas pra festinha. Na volta da pousada a travessia foi durante a noite – iluminada só com a luz da lua e dos celulares. Milhares de sapos disputando a cantoria com grilos e acompanhados por vaga-lumes. Em casa, jantar a luz de velas e depois aula de dança: forro, salsa e zouk. A Ra era professora dança em Portugal desde a adolescencia, então nos deu aula de Salsa e Zouk. Gostei de aprender e dançamos muito! 

Dormimos e ainda lembro da sensação gostosa de acordar, olhar pela janela e vislumbrar o verde! Acordei antes do pessoal, meditei um pouco e me espreguicei na rede... Tomamos café-da-manhã e embarcamos novamente no Jipe. Dessa vez, o plano era visitar uma comunidade budista e se desse tempo, um parque de elefantes selvagens. 

Poucas horas depois, chegamos na comunidade budista de Kushalnagar - mais especificamente no Templo Dourado. Circundado por um imenso monastério, o templo é simplesmente de tirar o fôlego. Gramados muito bem cuidados, cores belíssimas e muito ouro nos ornamentos. Tudo majestoso e muito, muito grandioso. A gente não sabia, mas aquela era a 2ª maior comunidade budista fora do Tibet. A Mari estava já levitando, ela praticava budismo no Brasil. 

Entramos em diferentes partes do templo e presenciamos rituais com alguns monges. Passeamos pelos parques e eu até brinquei de futebol com crianças monges. Era o horário do almoço e por coincidência o Bopu tinha um conhecido tibetano, que morava por ali. O Loden é um refugiado e nos encontrou com sua linda filhinha. Almoçamos num restaurante de comida tibetana e ouvimos histórias absurdas sobre a repressão chinesa no Tibet, as relações políticas dentro do budismo, conspirações contra o Dalai Lama... 

No meio do papo ele nos perguntou: vocês já foram no grande templo? Achei que ele se referia ao templo dourado.. Pra nossa surpresa, não. Ele nos levou até a SeraMei, uma faculdade budista. Mais simples, sem todo o ouro, sem os ornamentos, mas muito grande. Nos muros, fotos horríveis de corpos de monges que foram torturados pelo exército Chinês. Infelizmente os números e as atrocidades que estão acontecendo por lá não chegam aos nossos olhos, a mídia não tem voz… 

Estava tudo vazio no grande pátio e havia um templo enorme no meio. Nas escadarias, milhares de calçados e quanto mais nos aproximávamos, mais intenso ficava o murmurinho de mantras. Quando chegamos perto, o arrepio foi inevitável. Pelas janelas vimos cerca de 2000 monges, sentadinhos em fileiras e entoando mantras que quase faziam as janelas tremerem (acho que eu tremi). Era um mar amarelo e vermelho, que ondulava para trás e para frente, numa dança que espalhava bondade para o mundo todo. 

Nosso amigo tibetano fez questão que entrássemos. Andamos pelos monges enquanto repartiam pão e rezavam, como rezavam – a um só som. Subimos no “altar” e visão era ainda mais arrepiante. Lá, ornamentos feitos de açucar e um trono, onde o Dalai Lama já esteve. 

Ao nos ver completamente encantados com aquela cerimônia, ele nos explicou: vocês deram sorte, isso não acontece normalmente, mas por coincidência, hoje é aniversário do Dalai Lama e eles estão comemorando! Sem palavras... 

De lá, visitamos a faculdade e a residência oficial do Dalai Lama, pena que estava fechado e não dava pra visitar. Praticamente todos os monges estavam no templo... Não precisou. Já estávamos em estado de graça e ficamos por um tempo sentados, observando uma grande plantação de chá e pensando naquelas coincidências. 

Era hora de nos despedir, pegamos o jipe e voltamos para a pousada. No caminho, paramos no que deveria ser uma cachoeira na beira da estrada. Triste e revoltado, Bopu nos disse como o aquecimento global tem interferido em tudo, a cachoeira era só um filete descendo pela rocha. A vista era incrível. 

Jantamos num hotelzinho simples e pegamos o ônibus de volta a vidinha estressante de Bangalore. Mas estávamos vacinados. Ah! E é claro que coincidentemente, estávamos todos no mesmo ônibus novamente. 

Uma viagem que eu só soube na véspera se tornou uma das melhores experiências e me trouxe uns dos melhores amigos. Já faz algum tempo que não acredito em coincidências... Alguém ainda acredita?

Paisagem de Coorg - Plantação de chá

Pernas no jipe

Em direção à casa


Atravessando o arrozal

Varanda onde tomamos café

Verde ao infinito

Salinha aconchegante

Vidão

Rio das WhiteWaters

Caminhada

A trupe: Camila (Suécia), Mari (Santos), eu, Ra (Portugal), Deepak e Rumela (Índia)

Get down Team!

Depois do rafting

Delicioso jantar

Zouk

Golden Temple

Monumental

Ornamentos

Oração

Grande Templo

Entrada do Templo

...

Paredes pintadas - as cores são incríveis

Mini-monges

Monge jogando cricket

Restaurante tibetano

Imagens de tortura - triste e revoltante

Trupe + Loden e a pequena Mela

Calçados na escadaria

Eu e Ra

Arrepios

Casa Dalai Lama

Coincidência??

Monday, September 29, 2008

Curiosidades II

O Buzinês

Agora estou dirigindo na Índia. Sim, comprei uma scooter e estou me aventurando no transito. Faço parte da massa que entope os becos, ruas, avenidas e “trilhas de rally” (porque pra ter mais buraco, terra e barro só no Paris-Dakar) que cortam Bangalore, e começo a entender um novo idioma: a buzina. É como se os carros estivessem conversando: uma ultrapassagem tem 3 buzinas: “Abre espaço. To passando. Já vi, pode ir.” Num cruzamento sempre tem discussão e quando não tem entendimento ficam todos parados, um de frente para o outro sem ter como sair.

 

Caminhões

Os caminhões são um show a parte nas estradas. Sempre ultra-coloridos, pintados, com adesivos e cheios de coisas penduradas: chumaço de cabelo, flores secas, flores frescas, brinquedos, panos coloridos, estatuetas de deuses, foto da família, etc. Na traseira, sempre escrito “Horn OK Please” – buzine por favor. (já expliquei isso aqui). Outra característica é que são muito quadradões, alguns literalmente são containers (como aqueles dos portos) com rodas. A grande maioria está caindo aos pedaços e não é difícil vê-los com muito mais carga que deviam. Nunca vi um caminhão-pipa que não estivesse vazando água pela rua afora – agora imagina um caminhão-tanque, carregando combustível?

 

Carro de Família

Continuando no trânsito, outra curiosidade... Na Índia, moto é veículo de família! É muito comum ver um pai carregando os 5 filhos empilhados numa moto, mulheres carregando recém-nascidos na garupa ou criancinhas que não devem nem andar ainda, se segurando no guidom da moto. Detalhe importante, o capacete só é obrigatório para o motorista...

 

Refeições barulhentas

Lembro o quanto meus pais (meu pai principalmente) me educaram a não comer de boca aberta e tentar não fazer ruídos ao mastigar. Aqui na Índia eles teriam um troço. A impressão que dá é que comer de boca aberta, estalando a língua, chupando os dedos e fungando o nariz (por causa da pimenta) é sinal de que está gostando da comida. Tem um cara que trabalha perto de mim e cisma de comer em frente ao computador, ao invés de ir pro refeitório – tenho q colocar fones de ouvido e música alta para concentrar no trabalho.

 

Cinema

Depois de muuuito tempo fui ao cinema. A primeira barreira é conseguir o ingresso. Aquilo de ligar pra um amigo, 1 hora antes, combinar de pegar um cineminha, chegar 20 minutos antes da sessão (que é pra dar tempo de dar uma volta no shopping) e ver o filme é coisa do meu passado. Aqui tem que comprar com antecedência de dias, se for lançamento é melhor nem ir durante o fim de semana. Os cinemas dos shoppings são modernos, muito confortáveis e de ótima qualidade de som e imagem. As bizarrices são: primeiro toca o hino nacional. As pessoas chegam a qualquer momento – mesmo com 40 minutos de filme ainda tem gente chegando. TEM INTERVALO!! Não importa o tamanho do filme, tem um intervalo, sem aviso prévio. Abruptamente o filme é cortado, as luzes se acendem e o pessoal sai pra comprar tudo que é fritura – o pior é que não avisam quando o filme irá recomeçar... Perdi uma parte de Dark Knight porque não sabia que já tinha começado (pô, nem uma campanhiazinha??)

 

Santos Católicos, adoração Hindu

A comunidade católica em Bangalore é bem grande, se comparada às outras cidades que fui. Tem muita igreja, altar pra santinho... O curioso é que apesar dos santos terem os mesmos nomes (só que em Inglês) e a mesma imagem, a maneira de adoração é diferente  - mais voltada pro Hinduísmo. Às vezes colocam comida (que seria o Pooja), sempre colocam aqueles colares de flores (dente-de-leão), marcam a face do santo com aquela maquiagem vermelha, vestem Nossa Senhora de saree, etc. Como diria Gil (leia com sotaque baiano), “é o sincrétismo culto-réligioso em sua expressão típica do súb-continênte asiático.”

 

É briga?

Além das buzinas incessantes, outro barulho constante é das vozes dos indianos. Não bastassem falaram super rápido em 23 diferentes dialetos incompreensíveis, falam com uma tonalidade que parecem estar brigando com um inimigo mortal a todo o momento. No início eu ficava sempre observando, esperando sair um tapa – depois descobria que era só uma discussão sobre algum pequeno detalhe.  Será que volto meio surdo pro Brasil?

 

Construção, Mulheres e Ferramentas sem cabo.

Um engenheiro civil deve ficar muito chocado na Índia. É muito bizarro a maneira que eles constroem as coisas por aqui. Não dá pra explicar muito, mas vou enumerando as bizarrices: os tijolos são, em sua maioria, de pedra (furar uma parede na Índia é tarefa pra broca industrial – pra pendurar quadros tem que se fazer um enxerto de madeira na parede, não tem prego que fure.

Tem muitas mulheres trabalhando. Mas não se preocupem, elas só fazem o trabalho pesado: preparar massa, carregar pedra, carregar água, areia... O trabalho “pensante” só homem que faz. – como explicou um mestre-de-obras a um amigo engenheiro. Elas carregam tudo na cabeça, e feito formigas vão andando em filas dentro da construção.

As ferramentas tem todas cabos muito curtos.
Isso é geral! Vassoura, pá, enxada, rodo, picareta... tudo tem um cabo minúsculo que dificulta muuito o trabalho (na minha opinião). E o trabalho é praticamente artesanal, somente construções muuito grandes têm maquinas trabalhando...

 

Supermercado

Pra ir no supermecado fazer a compra da semana (ou do mês) tem que rezar pra ter sorte antes. Não existe padrão! Aquela marca de macarrão que você comprou semana passada, não tem mais e talvez nunca mais tenha. Eu comi granola por 2 meses, depois nunca mais achei. Tem semana que tem da batata grande, outra só da pequenininha, tem semana que tem feijão, outras não... E tem lugar ainda que você tem que passar por diversos caixas para pagar: 1 só para pagar frutas, outro para as carnes, outro para as bebidas... A conta ainda vem dividida no que é comida e no que é não-comida.

 

Crime

Algumas pessoas me perguntam sobre violência aqui. É muito raro ter assalto nas ruas, ladrão de carteiras, etc. O lado ruim é que tem extremismo religioso, ataque terrorista, mulheres são estupradas, tem vandalismo até por rivalidade de línguas!!! Lembro de um cinema que foi apedrejado só porque estava estreando um filme em Tamil (língua falada no estado vizinho de Karnataka). Imagina se a gente resolve explodir a Globo por causa do carioquês?

 

Caneta

Isso é uma coisa que se encontra em pequenas cidades; triste, mas interessante... Crianças pedindo lápis e caneta. Me disseram que há um tempo, elas ficavam mendigando por comida e dinheiro – mas aí teve uma campanha enorme para que fossem dadas canetas às crianças, para ir à escola. Acabou virando tradição então você vê crianças pedindo caneta, com livrinhos nas mãos ao invés de dinheiro.

 

Hijras e Prostitutas

Há um grupo de transexuais muito respeitado aqui – acredite se quiser. São considerados semi-divinos, têm os genitais amputados quando criança, vestem saree (a veste tradicional da mulher indiana) e saem pelas ruas abençoando os homens em troca de moedas. Quem dá moeda é abençoado (na cabeça lá de baixo) e tem fertilidade, quem não dá pode ser amaldiçoado (também relativo à cabeça de baixo...).

Outra grande surpresa foi descobrir prostitutas vestidas de saree em pleno centro de Bangalore. Estava indo a um jantar com uma amiga e resolvemos sair da avenida mais movimentada e ir a uma avenida paralela para pegarmos um riquixá e evitarmos o transito. Na calçada, mulheres com bijuterias, saree (que cobre o corpo todo) e maquiagem. Na sarjeta, riquixás parados esperando por clientes para pagar a moça e uma corrida especial... Não deu pra pegar riquixá nessa avenida.

 

Contando Dedos

Os gestos dos indianos são todos muito diferentes a começar pelo jeito que dizem “sim” com a cabeça (que eu agora faço naturalmente). Um muito curioso talvez seja como contar com os dedos. Eles contam com as falanges, então cada dedo vai até 3 e em cada mão dá pra contar até 12 – pois o polegar é utilizado somente para apontar o valor. Talvez esteja aí a origem da “dúzia”.

 

Cachorrada

Além de vacas, ratos e esquilos, as ruas têm muitos cachorros – muitos! Durante o dia você os encontra dormindo em tudo que é canto. Às vezes estão na calçada de uma das avenidas mais movimentadas, onde passam milhões de pessoas gritando e carros buzinando – não se incomodam. É uma demonstração de preguiça e cansaço incrível. Por volta das 9:00pm eles começam a acordar... Aí é uma zona! Procuram comida, correm atrás de rato, de vaca, brigam entre si e latem muito! Quando chego de moto em casa, tarde da noite sempre sou perseguido...

 

Arquitetura

Não tenho conhecimento técnico nenhum sobre isso e não vou falar sobre a belíssima e exótica arquitetura das construções antigas. Isso é sobre as construções modernas: são todas cheias de buracos e quinas! Eu acho muito feio e nada útil... Os prédios e casas geralmente tem dezenas ou centenas de varandas e adornos geometricamente espaçados – uma poluição visual, uma confusão! E o pior é que tem tanto canto e quina, que só serve pra acumular sujeira, mancha de cuspe e deixar o prédio ainda mais feio com o passar dos anos...

 

Natação

Alguns amigos moram em condomínios com piscina aí vou lá pra nadar um pouco e claro que tem curiosidades também. Primeiro que indiano não sabe nadar: nunca vi 1 que soubesse um dos estilos esportivos. É muito engraçado eles nadando estilo “cachorrinho” ou só espalhando água pra tudo que é canto, sem sair do lugar. Tem até aula de natação, mas o professor é indiano, então... Outra coisa é o traje de banho. Tem lugar que se entra de roupa mesmo, saree e tudo! Ou então usam uns maiôs igual o da vovó e o mais engraçado: a toquinha de cabelo! Gente, adultos usam toquinhas coloridas e com babados, de fazer qualquer criança com mais de 6 anos chorar de vergonha!



Buzinês


Clipe: meios de transporte

Familia feliz

Recém-nascido


Video com o hino, antes do filme

Trabalho pesado

Sempre coloridas


Nossa Senhora - Enrolada no Saree


Crianças pedindo caneta

Hijra descascando a banana...

Grupo de hijra dançando na rua.


Contando dedos (atenção pro gesto da menina)

Preguiiiiça

Nada tira o sono.


Haja quina!

Haja buraco!

Frota

De saree no mar

Imagina vestir isso no Brasil?

Saturday, September 13, 2008

Pondicherry: o mundo foi pra la

Já estava sentindo saudade de participar das atividades da AIESEC, já que aqui na Índia eles nunca entraram em contato comigo. Foi quando um amigo do Egito que mora por aqui, Ahmed, me disse que uma haveria uma conferencia nacional dentro de 1 mês. Recomendou que escrevesse para um email, dizendo do meu interesse de participar.

O email veio com uma resposta: Parabéns, você foi selecionado para ser facilitador da June National Conference!! Eu nem sabia que havia me candidatado a isso, mas porque não? Já queria ir à conferencia, agora teria todas as despesas pagas!

Eis que na lista estava também Michelle de Ré! Conheci a Michelle em 2003, numa conferencia no Brasil – nunca mativemos contato, mas foi uma boa surpresa descobrir que ela estava aqui na Índia também, morando em Chennai. Acabamos nos encontrando em Bangalore mesmo, uma semana antes da conferência.

A conferência seria em Pondicherry, cidade litorânea no Estado de Tamil-Nadu e uma antiga colônia francesa. Deveríamos estar no hotel no Domingo, para uma reunião com a organização da conferência. A grande coincidência foi que vários trainees de outras cidades também haviam combinado de viajar para “Pondi”.

Fui para Chennai na sexta-feira Em Chennai percebi o quão bom é o clima de Bangalore – Chennai tem temperaturas de um forno industrial! No trem, quando cheguei próximo da cidade sentia como se derretesse. A cidade toda transpira! As pessoas na rua estão constantemente molhadas e o concreto de uma cidade de 5 milhões de habitantes não ajuda nada. Não vale uma outra visita.

Encontrei a Michelle e pegamos um ônibus para Pondi. Chegamos muito tarde e famintos! O único lugar que achamos para comer foi um hotel chique, na orla. Com certo custo, comemos uma boa massa.

Ficamos numa pousada simples, na parte francesa da cidade. Um charme! Ruas bem limpas, prédios coloridos, cafés e restaurantes bacanas e muitos nomes em Francês. O lado indiano da cidade é igual às outras cidades: caótico, sujo e barulhento. Outra coisa boa é que os impostos não são tão pesados lá, então bebida é beeem mais barato.

No dia seguinte, após um bom café-da-manhã, o plano era encontrar o resto da galera – e que galera! Mudamos de hotel e ficamos próximos a Auro-Ville. Auro Ville é uma comunidade modelo, criada por um guru e sua esposa, segue princípios fundamentais dos mais utópicos comunistas (tudo é de todos) e tenta ser completamente auto-sustentável.

Depois de deixar as bagagens, fui com boa parte do grupo até Paradise Beach. É uma ilha! Pegamos um riquichá até um lugar de onde saem barcos e balsas até a ilha. Já eram umas 3 da tarde e fomos avisados que o último barco voltaria às 5 – pouco tempo pra aproveitar...

Chegamos e encontramos mais uma parte do grupo (era muita gente). Fomos direto pro mar! Meu primeiro mergulho na Baia de Bengal - agora já nadei nos dois mares da Índia. Acho que éramos uns 20 na água, brincando, rindo e pulando as ondas que vinham de todos os lados. Isso era muito estranho, o fundo do mar era todo irregular, com muitos buracos, então as ondas eram malucas, literalmente vinham de todo lado.

Na praia ficavam guardinhas com apitos por todos os lados, controlando a diversão. Tamil-Nadu é um dos estados mais conservadores da Índia. Quando eram 5:30 começaram a apitar desesperados, avisando que o último barco estava saindo. Saímos do mar, e fomos pegar nossas coisas. Mas era tanta gente pra sair da ilha, que claro que levariam vários minutos e barcos para isso.

Aproveitei para tomar uma cerveja. O engraçado é que desde o início haviam placas dizendo que era proibido o consumo de bebida alcoólica. Mas o único quiosque da praia tinha cerveja geladinha, legalize! Fiz questão de tirar foto! Na Índia muita coisa é assim, proibido, mas pode – não faz sentido!

A noite, fomos jantar todos juntos. Na praia, mineiro come peixe! Então pedi o meu peixe ao molho de vinho branco, muito bom! Mas o melhor era parar e dar uma olhada no restaurante. Nossa turma agora tinha umas 45 pessoas! Eram línguas diferentes, aparências completamente distintas e muitas risadas! Contei 34 países diferentes!!! E conseguimos reunir tudo isso sem grande dificuldade, um passando email pro outro e puf! O mundo todo estava em Pondi.

Depois do jantar uma big festa frustrada – já que o grupo se dividiu (difícil manter um grupo tão grande e diverso), mas acabamos numa roda de amigos gostosa regada a cerveja e tequila. Depois voltei à pousada, onde a maioria do pessoal estava sentado na praia à luz de velas na areia – plano era fazer uma fogueira, mas faltou iniciativa... Rs.

No Domingo, eu e Michelle deixamos o grupo e voltamos a Pondicherry (no centro indiano). A reunião estava marcada para as 10am, mas como na Índia tudo atrasa, soubemos que só iria começar às 2pm. Encontramos os outros facilitadores estrangeiros, Arnold do Quênia, Adeel e Hummayun do Paquistão.

Fomos caminhar na praia e encontrei de novo alguns dos outros trainees. Em Tamil-Nadu, não se pode demonstrar afeto em público. Andar de mãos dadas já é algo que perambula no limite do certo e do errado. Distraído, abracei uma amiga – no mesmo instante escutei gritos de um senhor que sentava do outro lado da rua e os apitos de um policial que estava próximo. Não pode!

A cidade estava vazia e caminhar pelas ruas era agradável, apesar do calor. Caminhamos pela praia de Gandhi, onde tem uma grande estátua do herói, pelos parques e fomos até um templo de Ganesh, onde uma graciosa elefanta abençoa os fiéis. Mostrei uma moeda, ela veio com a tromba, pegou a moeda e depois bateu levemente com a tromba na minha cabeça, estava abençoado!

A conferência começou na segunda-feira pela manhã. Como alguns comitês locais não haviam chegado, a abertura oficial foi durante a noite. A AIESEC na Índia é bem diferente (como todo o resto). Seus membros são bem mais novos, muitos indianos começam faculdade cedo – com 16, 17 anos! Então era uma garotada, com muita energia e pouquíssima disciplina.

Os comitês locais não se misturam, sentam todos juntos. Cada um tem vários “gritos de guerra” e como se fossem torcidas rivais num clássico, ficam gritando uns para os outros. DURANTE 3 HORAS INITERRUPTAS!!! Ficam todos molhados de suor, roucos, esganiçados. Tudo atrasa, MUITO! Pra vocês terem idéia, algumas sessões começavam de madrugada!

Bom, não vou detalhar muito aqui pois muitos de vocês não vão entender, mas quem for da AIESEC e quiser saber mais de quão estranha é a conferencia na Índia, eu conto depois. A conferência acabou e no dia seguinte voltei para Chennai para pegar meu trem de volta a Bangalore. Perdi o trem por 5 minutos! Vi ele saindo da estação... Lá estava eu, numa cidade que não conhecia, sem celular (acabou a bateria) e sem passagem de volta pra casa.

Sorte que tinha o telefone de um amigo e após algumas ligações vi que o melhor era ir para a rodoviária e rezar para ter vaga em algum ônibus. Finalmente consegui um ônibus comum, sem ar-condicionado, viagem péssima – mas cheguei são e salvo em casa. Difícil foi segurar o sono no trabalho...

Estação de Trem - Chennai
Pondicherry - Tamil, Inglês e Francês

Caminhando na ex-colonia francesa

Café-da-manhã

Cheguei no paraíso! Cadê o moço de barba?

Mar mais esburacado que já entrei...

Outro lado da ilha

Todo o Mundo!

"É proibido alcool após este ponto"

Pegando o barquinho de volta...

Jantar Global - 30 e tantos países

e tem mais...
1 bençao, sem traumatismo - por favor.

Praia de Gandhi - Pondicherry

Ó o cara aí!

Brasil e Paquistão - Conferência

A gritaria...

Tuesday, August 12, 2008

Goa: Pallolem Beach

Antes de vir pra Índia já escutava este nome: Goa. Passagem obrigatória dos turistas, o lugar de onde surgiu o trance, praias belíssimas, uma antiga colônia portuguesa, onde havia alguns (poucos) resquícios da nossa da língua Portuguesa.

Aproveitando um feriado na terça-feira, partimos para 4 dias na praia. Éramos alguns trainees que moravam em Bangalore, outros de Mumbai e outros de Chennai. Ao todo: uns 16. Dentre estes, a Juli!!! A Juli é uma amiga colombiana, trabalhamos e dividimos uma casa (ou flat??) durante 1 ano em SP. Coincidência boa estarmos os dois na Índia agora.

Decidimos ir a Pallolem Beach, no Sul de Goa. Parecia que estávamos todos na mesma situação: stressados com o trabalho ou com a cidade que estávamos vivendo. O plano era re-la-xar. Nada de passeios longos, ônibus, visita a templos... “Só” praia, sol, mar, cerveja, comida bom e risadas.

Nós de Bangalore fomos de ônibus fretado e depois de virar a noite na estrada, acordamos em Goa. Caminhando para a praia, eu ainda tinha o incômodo de carregar uma mala maior, terno e laptop – de Goa iria para Delhi a trabalho. Tive explicar várias vezes: “porque você trouxe terno pra praia???”

Palolem Beach é uma vila pequena, colorida e graciosa. Claro que tem a rua do comércio (como as praias brasileiras), cheia de lojinhas de artesanato e outros souvenires. A praia é bonita: uma baia com rochas nas pontas, mar azul e areia fina. Ao fundo, entre castanheiras e coqueiros, as pousadas, sempre com o restaurante voltado ao mar e decorado com lanternas, colchões e almofadas coloridas – uns mais chiques e outros mais simples.

Após andar um bocado, acabamos encontrando uma pousada de bom preço e capaz de acomodar o grupo quase todo – alguns casais preferiram outra pousada. Chegando na pousada, não se passaram 5 minutos, já estava de bermudão, olhando as ondas e tomando uma cerveja gelada – mesmo depois de uma noite mal dormida da viagem.

Depois veio o café da manhã reforçado, mais uma cerveja e finalmente o primeiro mergulho no Mar Arábico, Oceano Índico. E foi exatamente isso que pensei quando me joguei no mar, boiando com a cara pro Sol: “meu Deus olha onde eu to! Nadando no Índico”!

O pessoal de Mumbai e Chennai chegou. Corri na praia pra dar um abraço na Juli e logo fui conhecendo todo mundo. Almoço na praia: camarão e peixe, é claro (como todo bom mineiro)! Praia também pede FUTEBOL! O jogo foi: América do Sul (Brasil e Colômbia) x África (África do Sul, Camarões e Egito). América do Sul na cabeça!

O Sol começou a baixar e fui caminhar na praia com a Juli – muito tempo sem conversar direito, muita coisa pra compartilhar sobre a loucura de se viver na Índia, planos para o futuro, coisas da cabeça e do coração.

Fomos ver o pôr-do-sol no lado esquerdo da praia, onde tem um resort de cabaninhas de madeira. Depois de subir nas pedras, uma cena estranha... Uma equipe de filmagem, gravando 2 mulheres loiras nas pedras, em poses sensuais enquanto um homem com cara de malandro as entrevistava. Disse pra Juli: “Putz, parece até filmagem de filme pornô”.

Queríamos tirar foto ao por-do-Sol, fui pedir um grupo de meninas que estavam do lado. A primeira coisa que uma delas me disse foi: “Você não acha que aquilo parece um filme pornô?”

De noite fomos jantar todos juntos, mesa gigante com papos e risadas diversos. O William levou uma garrafa de cachaça colombiana (além de 23 kilos de doces que trouxe na bagagem de mão, direto da Colômbia) – já tinha tomado antes, dilícia! Depois de comer, pedi um narguilê de maçã pra fumar com o pessoal. Desculpa o mineirês, mas ô trem bom pra relaxar!

Relaxei demais, bateu um sooono de fazer a pressão baixar. Fui sozinho de volta pra pousada, caminhando na praia onde vaquinhas dormiam (sim, tem vaca até na praia), ouvindo o quebrar das ondas sob a luz de um céu estrelado como há muito tempo não via.

Estava tão gostoso caminhar pela praia, sentindo a brisa fresca e salgada, que nem percebi que havia passado da pousada. Cheguei até o outro lado da praia, onde o céu estrelado se refletia num rio que desemboca no mar. Foi o reflexo das estrelas que me salvou de um banho de rio na madrugada.

Acordar na praia, ao som do mar, tomar um banho frio, uma água de côco e correr! Adoro correr, na praia então é compromisso certo – acordo cedo só pra correr na praia. Depois da corrida, café-da-manhã e de novo a rotina: cerveja, mar, mar, mar, cerveja, cerveja, mar, futebol, cerveja, risadas. Nossa pousada deixava pranchas de bodyboarding disponíveis aos hóspedes. Foi a primeira vez que usei essas pranchas, é muito bom!

Ficamos sabendo de uma festa, uma tal de Silent Noise (barulho silencioso). O esquema era: festa na areia, 2 DJs tocando trance, entrada free e música rolando até as 23:00. Depois deste horário, música só pra quem alugasse fones de ouvido sem fio. Estávamos cépticos sobre a festa, não alugamos os fones de ouvido. As onze anunciaram: a partir de agora, música só nos fones.

Foi incrível estar em um silêncio absoluto e ver centenas de pessoas com fones se remexendo na areia, sorrindo e dançando muito. Corri pra comprar o meu! Adorei a festa, ainda mais porque dava pra conhecer muita gente. Bastava pedir para tirar o fone e conversar normalmente, sem gritaria, sem mímica – fazia silêncio.

Voltei pra pousada às 5 e alguma coisa e tinha um compromisso logo mais. Tínhamos alugado um barco para ir ver golfinhos naquela manhã. Segundo os nativos, só seria possível logo de manhazinha, tipo às 7.

Não é bom pegar um barco mar adentro, de ressaca, sem dormir. Mas isso não foi o pior... Golfinhos??? Vimos de longe uns 3, só as costas enquanto fugiam dos barcos. Sabe aquelas cenas de filmes, com os golfinhos pulando perto do barco – pois é, não foi assim.

Uma das coisas mais legais da viagem foi ver o Sol se pôr no mar. No Brasil eu sempre via ele nascendo do mar e se pondo no continente... Mas eu tava do outro lado! Lindo, lindo ver aquela bola laranjada gigante se fundindo com o mar. Só faltou fazer Tsssssss.

Além de um lugar delicioso, a companhia era muito boa. Muito bom dar gargalhadas a todo o momento, ter conversas aleatórias e se divertir com gente do mundo todo... Além disso, se divertir com coisas novas como brincar de “catch” (uma das coisas que se faz no cricket) com o sul-africano e fazer acrobacias na areia.

Depois de 4 dias na praia, fui para Delhi relaxado, pronto pra agüentar uma série de reuniões, poluição, calor insuportável – o pacote completo. Goa pede outra visita. Lá, descobrir o melhor remédio para a vida caótica e irritante das metrópoles indianas – viajar!

Se vier a Índia a trabalho, faça questão de ter direito de tirar dias de folga, esticar feriados, de não trabalhar todos os Sábados... É mesmo uma necessidade. Teria Amyr Klink escrito o famoso: “...um homem precisa viajar...” depois de uma temporada na Índia?

Só posso concordar com ele.



Cafe da Manhã

Vista ao chegar...

Nossa pousada.

Fim de tarde.

A trupe.



Brasileños.

Pôr-do-Sol.

Eu, brincando de Apollo.

Cachaça da Colômbia, amiga da Romênia.

Jantarzinho...


Vista noturna.

Dançando sem música.

Agora com música.

Aqui nasceu as raves.

Caça golfinho.

Golfinho, só sonhando...

Vaquinhas na praia, claro.

Relax.

...

O vento tava atrapalhando...

Monday, August 11, 2008

Parênteses: Reparação em Tempo

Abro mais um parêntese. Desta vez para compartilhar com vocês um texto enviado por um amigo que fiz durante meu tempo em São Paulo. De um humor afiado, um alto-astral invejável e inteligência admirável, o Rodolpho vez em quando me dá a felicidade de ler seus textos por e-mail (essa é pra explodir seu “pequeno” ego, hein Rodolpho?). Este é sobre o tempo...

Reparação em Tempo
Rodolpho Rocha (1)

Nunca se escreveu tanto, nunca se produziu tantas elucubrações sobre o tempo, sua importância, como usá-lo, como se tornar mais feliz dele se apropriando.

O que antes parecia ser preocupação dos poetas, compositores populares e filósofos pré-socráticos, hoje invadiu o erudito mundo dos negócios. Daí essa intensa “manifestação cultural” que, de forma mais oportunista que ingênua, nos apresentam receitas e recomendações para a conquista da felicidade neoliberal.

“Gestão do Tempo”, “Maximização do Tempo”, “Otimização do Tempo”, “Produtividade Pessoal”, são alguns dos títulos de livros ou de workshops que demonstram nossa conversão a esse tão disciplinado e eficiente ramo do conhecimento humano.

Em contraponto a esse ciclo de modernidade, segue o texto abaixo elaborado após entrevista com membro dissidente do movimento. (2)
Tempo você não investe.
Tempo você não resgata.
Tempo você não empresta.
Tempo não se desperdiça.
Tampouco se recupera.
Tempo nunca foi dinheiro,
(pois se o fosse, os Bancos dele se apropriariam e,
generosamente, o venderiam para nós com juros obscenos).
Tempo você não acumula,
porque não se pode ser guardado.
Tempo não passa, não vai, nem fica,
porque não é bloco de Carnaval,
nem catapora, nem propaganda gratuita de TV.
Tempo nunca se esgota,
o que acaba é apenas a areia fina
que um idiota desocupado
despejou num vidro de cintura fina e o chamou de ampulheta,
não sabendo o que fazer com o tamanho do seu tédio e o vazio da sua solidão.
Tempo não pode ser gerido,
porque você não é seu dono.
Tempo não pode ser absorvido,
porque não há estoque de toalha de papel disponível.
Tempo não pode ser curtido,
porque não é picles exibido em gôndola de supermercado.
Tempo não passa lentamente.
Tempo não voa tão depressa,
porque não é passarinho, não come alpiste, nem caga na sua desatenta cabeça globalizada.
Ninguém consome tempo,
nem por ele é consumido,
porque tempo não é alimento, não engorda, não provoca gases nem é distribuído em cestas básicas.
Tempo não cura porra nenhuma!
E nem faz parte do receituário farmacológico nacional (incluindo genéricos).
Tempo não acaba com sua dor de corno,
e nem apaga as cagadas que você cometeu.
Foi você, com sua sabedoria quase desconhecida
que guardou toda essa dor, toda essa ira
no lugar certo, dando-lhe o seu verdadeiro tamanho e significado.
E agora torna esses eventos quase bonitos
posto que é só lembrança.
Mas o tempo não tem nada a ver com isso!
Portanto, se você quer aprender sobre o tempo
fale com os malucos que nunca
acreditaram na divisão passado-presente-futuro que quiseram lhe impingir.
Ou fale com os preguiçosos,
que quase por reverência (ou por inércia)
não explicam o tempo, nem pensam em dominá-lo,
sabiamente, a ele se entregam!

(1) Notas sobre o autor: Rodolpho Rocha é consultor de empresas e vê com muita seriedade as questões relacionadas à administração e uso do tempo. Faz questão de destacar que o texto quase-poema não reflete sua posição pessoal, porque ele não sabe se a tem. A história é fictícia, o personagem é fictício, o congresso também o é. Só é verdadeira a morena e seu sorriso escancarado, assim como a praia deserta no litoral baiano que o brancaleônico exército dos ambientalistas insiste em preservar.
(2) Notas sobre o personagem: O personagem em questão era renomado palestrante de seminários internacionais sobre Administração do Tempo e não raras vezes aparecia em capas de revistas especializadas. Ocorre que num grande evento em São Paulo, onde faria a conferência magna, não apareceu: estava em ótima e sorridente companhia numa praia deserta no litoral baiano. Foi injuriado, foi processado, perdeu muito dinheiro, perdeu todo prestígio conquistado. Mas não se arrependeu nem um pouco da decisão tomada e hoje encanta turistas que compram suas peças de artesanato e ficam deslumbrados com o seu inglês tão fluente.
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(english version)
Brackets: Mending Time
Another bracket. This time is to share with you a text I received from a friend I made while I was in São Paulo. With a sharp humor and admirable intelligence; Rodolpho – one in a while – gives me the happiness of reading his writings on my mail box. This one is about “time”…
Mending Time
Rodolpho Rocha(1)
There has never been so much written, there has never been so many lucubrations about time, its importance, how to use it, how to be happier by appropriating it.

What used to only concern poets, popular music composer and pre-Socratics philosophers, today it has invaded the erudite world of business. That’s where the intense “cultural” manifestation, that in a more opportunistic than naïve way, shows us recipes and recommendations to achieve neo-liberal happiness.

“Time management,” “Maximization of Time,” “Optimization of Time,” “Personal Productivity,” are some of the book titles or workshop names that demonstrate our conversion to this so disciplined and efficient subject.

On the other side of the movement, the text below was created by a dissident of this successful universal movement. (2)
Time can’t be invested.
Time can’t be rescued.
Time can’t be lent.
Time can’t be wasted.
You also can’t get time back.
Time has never been money,
(because if it were, the banks would claim ownership over it and generously sell it back to us with obscene interest rates).
Time can’t be accumulated,
because you can’t keep time.
Time doesn’t pass, doesn’t go, doesn’t come,
because it’s not a parade float,
nor is it chicken pox, or an infomercial on TV.
Time never runs out,
what ends is just the fine sand
that some idiot with nothing to do
put in a glass with a tiny waistline and called it an hourglass,
not knowing what to do with his immense boredom and the empty space of loneliness.
Time can’t be managed,
because you’re not its owner.
Time can’t be absorbed,
because there aren’t enough paper towels.
Time can’t be cured,
because it’s not pickles on display in a supermarket aisle.
Time doesn’t go by slowly.
Time doesn’t fly so quickly,
because it’s not a birdie, it doesn’t eat bird seed, and it doesn’t poop in your distracted global head.
Nobody consumes time,
or is consumed by it,
because it’s not food, it doesn’t make you fat, it doesn’t give you gas, nor is it bought with food stamps.
Time doesn’t heal a goddamn thing!
And it doesn’t even exist in pharmacies anywhere (not even a generic substitution).
Time doesn’t heal the pain you feel when you’re cheated on,
And it doesn’t erase your fuck-ups.
It was you, with all your almost unknown wisdom
who kept all this pain, all this anger
in a great place, giving it its proper size and meaning.
And now you make these events almost beautiful
even though they’re only memories.
But time has nothing to do with it!
So, if you want to learn about time
Talk to the crazy people that never
believed in the division of past present future that others wanted to impose on people.
Or talk to the lazy ones,
those who, almost as an act of reverence (or due to inertia)
don’t explain time, nor do they think about dominating it,
full of wisdom, they give themselves to it.

(1) Note about the author: Rodolpho Rocha é HR consultant and takes time management issues very seriously. He wants to emphasize that the text, which is almost a poem, does not reflect his personal opinion, because he’s not sure he has one. The story is fictitious, the character and the big event are also. The only real part is the tanned beauty and his enormous smile, and also the deserted beach in the north of Brazil that a pasty white army insists on saving.
(2) Note about the character: The fictitious character used to be a famous lecturer in international workshops about Time Management, and many times has he appeared in magazine covers. But during a big event in São Paulo, where he was supposed to give an important lecture, he didn’t show up: he was all smiles and in great company on a beach in the north of Brazil. He was insulted and sued. He lost all of his money and all of his prestige. But he didn’t regret his decision at all. Today he charms tourists who buy his handmade pieces of art and are surprised to hear his fluent English.

Monday, July 14, 2008

Visitas ao Brasil

Quem me dera atravessar metade do mundo e voltar à terrinha para visitar amigos, família, comer de novo a comida mineira, a comida da mamãe... Mas falta grana e tempo pra isso.

Aqui em Bangalore temos uma “comunidade” de brazucas, de número razoável... Eu conheço pelo menos 12. São outros trainees, expatriados com a família toda, gente estudando aqui... Ainda tem os portugas, que compartilham muita coisa com a gente, além da língua.

Alguns são mais próximos e nos vemos todas as semanas (por isso meu português ainda não está misturado com o Inglês, como alguns esperavam), outros a gente encontra só nas festas, churrascos, etc.

Por isso o título do post: de vez em quando é possível esquecer que estamos aqui e fingir que estamos em terras brasilis! É café brasileiro, pão de queijo, brigadeiro (negrinho pra gauchada), coxinha de frango, caipirinha, churrasco (não tem picanha, então vai filet mignon). Até amigo-oculto de páscoa a gente fez, trocamos chocolate e tudo.

Como eu adoro cozinhar, como comida brasileira sempre. Frango com quiabo, muqueca baiana (só faltou do azeite de Dendê), strogonoff, feijão tropeiro, frango baiano, bobó de camarão e o popular: arroz, feijão, bife acebolado, salada e batata frita. Tem tudo que a gente precisa aqui, os indianos comem coisas parecidas, mas preparadas de uma maneira completamente diferente.

Mas nada como a comida da Dona Di (saudade mãe).

Adivinha o maior problema dos churrascos...? Quem pensou CARNE DE VACA, errou! O mais difícil é acender o carvão! Num dos primeiros que fui, demorou tanto pra acender o carvão (até gasolina o pessoal tava usando), que eu fui pra cozinha fazer alguma coisa pra aliviar a fome... Carne acebolada na chapa e feijão tropeiro – teve bom!

Depois a churrasqueira ascendeu, aí foi hora das aulas de forró e samba. Um indiano que promove festas aqui em Bangalore estava lá, se animou e quis fazer uma festa brasileira numa boate – pediu minha ajuda. Gravei um CD com musicas brasileiras, expliquei o DJ o que era cada uma e que hora tocar cada coisa e até ensinei os barmans a fazerem caipiroska (cachaça não tinha).

Tudo pronto, casa lotada – hora de começar a festa brasileira. Peguei o microfone, falei qualquer besteira e soltei um “Coisinha do Pai – Vou Festejar” tocado pelo Monobloco, em ritmo de samba enredo (valeu Elvis).

A cara de perdidos dos indianos foi o sinal. Eles dançam com as mãos, não com os pés. Resultado: o DJ voltou a tocar músicas indianas e hiphop. Eu tentei, né?


Amigo oculto de Páscoa

Kart - o guardanapo é a balaclava!

Churrasco


Esse precisou de gasolina

Forró

Rodando a francesa (na falta de baiana...)

Pão de queijo, brigadeiro e café

Basket (ronaldinho e zizinho em campo)

(English version soon... sorry!)

Thursday, June 12, 2008

Hyderabad - Cidade das Perolas

Já faz mais de um mês que fiz essa viagem, mas só agora tive cabeça pra postar... Os trainees da AIESEC que estão fazendo seu traineeship na Índia foram convidados pela Indian Business School (ISB) para ir até Hyderabad.

A ISB oferece um dos melhores MBAs da Ásia e tem o objetivo de alcançar o topo dos rankings internacionais (já é top20 no mundo). Pra isso, os caras precisam de maior diversidade de estudantes (mais estrangeiros) e então fizeram uma parceria com a AIESEC e estão oferecendo bolsas de 50% e nos pagaram pra ir até lá conhecer o programa.

Como eu queria mesmo conhecer Hyderabad, aceitei o convite e embarquei em mais uma viagem. Soube que iriam outros 3 trainees daqui de Bangalore também, mas acabei não conseguindo comprar passagem no mesmo vagão deles.

Então, estava sozinho na estação esperando o trem. Já tinha viajado de trem antes, então não foi nenhum problema. Comprei uns chips, água e um chocolate e estava pronto pra viagem. Muito cansado do trabalho, dormi logo no início e só fui acordar no outro dia em Hyderabad – ou melhor, acordava em cada estação quando entrava os vendedores de chá, café, salgadinhos, sanduíche... Os caras além de gritar, me acordavam aos cutucões pra saber se não queria mesmo comprar algo.

Chegando em Hyderabad, desci logo e fiquei esperando na saída, para ver se conseguia ver os outros 3 trainees – não é tão difícil identificar 3 estrangeiros numa multidão de indianos. Foram uns dos últimos a sair, mas encontrei o Hunny (Alemanha), o César e o Kelvin (Costa Rica) e fomos para a escola.

A escola fica numa SEZ do governo (Special Economic Zones) – são regiões em que o governo alivia nos impostos pra atrair empresas e investimentos para desenvolver a região. Assim, tem prédios moderníssimos e belíssimos da Microsoft, InfoSys, etc...

A primeira impressão foi excelente, gramados bem cuidados, jardins e prédios novos e modernos. Fomos alocados nos quartos e informados que a programação começaria depois do almoço. Então fomos conhecer um pouquinho da escola, surpreendente! Ficamos na biblioteca, que tem também um cyber-café e emprestam DVDs. Filmes excelentes, de tudo que é parte do mundo.

Durante a manhã foram chegando outros trainees e durante o almoço já éramos uns 30 de tudo quanto é parte do mundo! Um deles era o Cris, da Grécia. O cara saiu de uma ilha que tinha 1000 habitantes. Imagina o choque dele de estar na Índia! Era muito engraçado falar com ele...

Depois de comer, fomos a uma apresentação do coordenador do MBA, que nos apresentou toda a escola, o programa e como funciona a bolsa. Depois da apresentação, entramos num ônibus para começar o tour por Hyderabad.

Já era de tardinha (ônibus atrasou) e fomos até o Golkonda Fort. São as ruínas de um forte de uma antiga capital de um império mulçumano. A cidade era muito rica, graças aos diamantes encontrados nos seus arredores. Por isso, também passou por muitas batalhas, até sucumbir ao império Mogol.

Não só pelo tamanho, o que impressiona muito no forte é sua arquitetura. Estamos falando do século 14, e a arquitetura é tal que cria: um sistema de alarme, um detector de metais, iluminação e muitas armadilhas aos inimigos. Não pagamos guia (queria nos cobrar o olho da cara), mas fiquei perto de um grupo de Coreanos e fui entendendo o que o guia falava pra eles.

Ao passarmos por uma câmara, ele explicou que ali funcionava um sistema de alarme. Se você ficar bem no centro da câmara (tem uma marcação no chão e no teto) e bater palmas com força, ela pode ser ouvida em todo o forte. Claro que eu fui lá bater palmas e é mesmo incrível o eco que dá.

Mais adiante, um grande corredor de colunas grossas. Ali entendi que era o detector de metais. O posicionamento das colunas e o formato do teto é tal que a acústica é inacreditável. Um farfalhar de roupas no início do corredor é escutado no fim do mesmo, onde fica um portão para a área do imperador. Então, se um visitante estivesse carregando uma espada ou um machado por baixo da roupa, o barulho do metal seria escutado e os guardas saberiam que ele estaria armado.

A noite caiu e então começou um show dentro do forte. É uma apresentação que utiliza luzes coloridas, uma fonte de água e caixas de som espalhadas pelo forte, contando a história do lugar como um romance. Eu não gostei muito, achei Bollywoodiano demais e tinham milhares de pernilongos comendo a gente vivo. Então saímos antes do show acabar.

Voltamos para o ISB, mas antes paramos numa lojinha pra comprar bebida e encontrar outros trainees. Ficamos na grama, ouvindo música, bebendo, dançando e rindo muito. A madrugada chegou e fomos continuar a festa na piscina. Gritamos, pulamos, fizemos “briga de galo”, cantamos e fomos crianças de novo – só que um pouco embriagadas... Rs. Estava com saudade dessas farras com o pessoal da AIESEC.

No dia seguinte, os que acordaram ainda pela manhã aproveitaram pra usufruir do centro esportivo do ISB. Jogamos basquete, sinuca, nadamos e fomos almoçar. Depois do almoço, embarcamos de novo no ônibus para a segunda parte do tour por Hyderabad. Dessa vez, fomos até o lago Hussain Sagar. O lago é bem grande e em sua volta tem gramados e jardins, muita gente deitada, criançada brincando, sorveteiro, pipoqueiro. Pena que fede pra caramba!

No meio do lago tem uma estátua de Buda, em pé, sobre a pedra de Gibraltar e abençoando o Sul, para onde os budistas foram expulsos durante algum conflito no passado. Acho que foi a primeira vez que vi o Buda de pé.

De lá, fomos para Charminar. É uma mesquita bem grande, com quatro grandes torres. Foi construída depois que a capital mudou de Golkonda para Hyderabad. O bairro é totalmente mulçumano, cheio de lojinhas de ouro, temperos, caótico e com muitas mulheres de burca. Infelizmente não dá pra fotografar muito, é uma agressão. Tentei flagrar uma cena interessante, uma banca de pimentas coloridas cercadas por mulheres todas vestidas de preto. Não deu, uma delas me viu com a câmera na mão e já ficou ressabiada.

Subimos na mesquita e tivemos uma visão legal da cidade. De novo a arquitetura é toda pensada em defesa contra ataques e também na propagação do som para as orações (desculpe minha ignorância se para mulçumano não se chama orações).

Já era hora de pegar o trem de volta a Bangalore. Fiquei no meio do caminho, pedi informações na rua e cheguei com antecedência na estação de trem. Deu tempo de tirar fotos (até lembrou de looonge a Praça da Estação de BH). Dentro do trem, a versão Indiana do que a mamãe já dizia: “não aceite doces de estranhos”.

Dizia assim:
“Por favor, não aceite biscoitos/doces/bebidas/qualquer alimento, que possam conter drogas/intoxicantes maléficos, de estranhos que irão lhe deixar inconsciente e roubar seus objetos de valor.”

Vou fazer um post só com placas bizarras, tenho que tirar mais fotos.

Trem para Hyderabad
Indian Business School



Golkonda Fort

Câmara de Alarme

Buda - Hussain Sagar

Pedra de Gibraltar

Bairro Mulçumano & Charminar

Lojas e temperos

Trainees na multidão

Entrando na Mesquita - Charminar

Charminar

Visão frontal

Em uma das torres

Tava vazio...

Ornamentos

Estação Kachiguda - Hyderabad

Mamãe já dizia...

Friday, May 16, 2008

Parênteses: Música

Hoje parei pra pensar sobre música. Passo os dias no trabalho escutando uma radio online, que toca de tudo, tudo mesmo. Você digita uma banda ou uma palavra qualquer e a radio vai começar a tocar músicas relacionadas àquilo. Vira e mexe uma música que nunca ouvi antes me chama atenção, paro o trabalho pra ver o nome da música, anoto num caderninho e continuo depois.

Gosto demais de música. De tudo quanto é tipo, mesmo. Não consigo achar 1 estilo que me desagrade por completo, todos tem alguma coisa que goste. Tango, axé, clássica, fado, samba, pagode, rock, funk, folk, blues, jazz, sertaneja, pop, metal, rumba, merengue, flamenco, techno, hiphop, a capela, gospel, forró, cantoria, bossa nova, chorinho, minimalista, karnatica, maracatu, frevo, punk, progressiva; cansei de lembrar...

Tem música pra arrumar casa, música pra dirigir, música pra cozinhar, música pra namorar, música pra dançar, música pra rir, tem música pra tudo! Existe forma de expressão mais completa que a musica? Nem precisa de letra e se tiver você nem precisa entender o idioma, ela te toca. Tem coisa mais universal que isso? Através da musica você pode sentir tudo. Feliz, triste, saudade, amor, raiva, agitação, tranqüilidade, energia, preguiça, tudo.

Se está sozinho, cante. Se está acompanhado cante junto. Se está bem acompanhado, cante pra ela.

Morando sozinho e sem TV em casa, fiquei mais próximo de 2 companheiros muito agradáveis: a musica e o livro. E não é que eu gosto de juntar os dois? Ontem li Gabriel García Márques com Radiohead.

Acho que durante nossa vida a gente vai formando além de nossa história, nossa trilha sonora. Cada música remete a uma época, uma pessoa, um momento, uma lembrança qualquer.

Talvez por isso, de todos os artistas, os músicos são os que têm os fãs mais fiéis e apaixonados. Eles escrevem nossa trilha sonora e ao fazer isso cria uma conexão irracional, às vezes inconsciente. Quem nunca escutou uma música e pensou: “É exatamente assim que me sinto”. Parece que o compositor passou pela mesma experiência, ele te entende e traduz tudo em música.

Tem aquele ditado que um homem, antes de morrer, tem 3 coisas a fazer: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Vou adicionar uma coisa: fazer uma música.




PS: Adicionei no menu do lado direito os livros que estive lendo e as últimas músicas que escutei. Quem quiser descobrir alguma coisa nova (ou velha), olha lá.

(English Version)

Brackets: Music

Today I got myself thinking about music. I spend the days at work listening to an online radio that plays all kinds of songs, really all kinds. You just type a band name or any word and the radio will start playing songs related to that. From time to time a music that I never listened before calls my attention; I stop the work to see the name of the song, write it on a notebook and then I continue working.

I just love music: all the genres, really. I can’t find one genre that I dislike for complete – all of them have something I like. Tango, axe, classical, fado, samba, pagoda, rock, punk, funk, folk, blues, jazz, country, pop, metal, trash, rumba, merengue, flamenco, techno, hip hop, a capela, gospel, forro, bossa nova, chorinho, minimalist, karnatic, maracatu, frevo, progressive; I’m tired of trying to remember…

There is the right music to clean the house, music to drive, music to cook, music to date, music to dance, music to laugh; there’s music for everything! There is most complete form of expression than music? There’s no need to have lyrics and if it has, you don’t need to understand the language – it touches you. There is something more universal than that? Through music you can feel everything: happy, sad, nostalgic, love, anger, excitement, calm, energetic, laziness, everything.

If you are alone, sing. If you have company, sing together. If you have a good company, sing to her.

Living alone and without TV I’ve got closer to 2 mates very pleasant: the music and the books. Guess what? I love to combine both. Yesterday I read Gabriel Garcia Marques with Radiohead.
I believe that during our life besides writing our history we are composing our soundtrack. Each music refers to a specific time, person, moment; a memory.

Maybe that’s why, from all the artists, the musicians are those which have the most loyal and passionate fans. They compose our soundtrack and, by doing that, create an irrational connection with us – sometimes even unconscious. Who never listened to a song and though: “This is exactly how I feel”. It seems that the writer experienced the same thing – he/she understands you and translates everything into music.

There is a say: “a man has to achieve 3 things before he dies: plant a tree, write a book and have a child”. I’ll add something: write a song.

Monday, May 5, 2008

Trabalhar na Índia

Não estou na Índia a turismo, então deixa falar um pouquinho de como é meu trabalho aqui. Como havia escrito antes, estou trabalhando na Alcatel-Lucent como executivo de comunicação.

Estou gostando muito, pois o desafio é grande. O mercado de telecomunicações / networking é extremamente competitivo e cresce a passos largos na Ásia. A cada semana tem novos contratos sendo fechados envolvendo milhões ou bilhões de dólares, as empresas disputam nariz a nariz posições no mercado e a guerra por talentos e tecnologia é intensa.

Isso não fosse o suficiente, a Alcatel-Lucent é o resultado de uma fusão de gigantes (a francesa Alcatel e a americana Lucent), que se tornou a maior empresa de tecnologia de comunicação do mundo. Com a fusão de 2 gigantes, uma nova identidade corporativa foi criada, não é mais Alcatel, não é mais Lucent: é Alcatel-Lucent. Se fosse só o nome, tudo bem, mas estamos falando de toda uma nova cultura organizacional e a percepção sobre ela.

E meu trabalho está diretamente ligado a difusão dessa nova identidade, internamente a todos os empregados e externamente à mídia, aos clientes, aos futuros empregados, etc. Estou bem satisfeito porque tenho assumido responsabilidades e projetos que não imaginava ter em mãos nessa fase da minha carreira. Trabalho junto à diretoria da empresa e sou o único responsável por comunicação corporativa em Bangalore, onde se concentram a maioria dos funcionários da Índia.

Bom, ao invés de falar o que estou fazendo aqui, acho mais interessante contar a vocês algumas curiosidades do ambiente de trabalho:

Reuniões

Assim como no Brasil, se fazem muitas reuniões. Seja pra acompanhar projetos, brainstorm de idéias, apresentarem novas propostas, etc. Na reunião sempre tem alguém presidindo, com a pauta e alguém tomando notas para a minuta, bem organizadinho. Meu grande problema no início era entender o sotaque indiano, às vezes ficava muito perdido nas reuniões e jurava que não estavam falando inglês. Hoje já é tranqüilo, acompanho tudo e opino bastante – aí é a vez deles terem que se esforçar para entenderem meu sotaque.. hehe

O que eu detesto são as reuniões por telefone. Como estamos em muitas localidades na Índia e eu estou envolvido em projetos pro país inteiro, frequentemente tenho que participar de reuniões por telefone. Aí é uma zona! O sotaque piora pelo telefone, um fala em cima do outro, as vezes a pauta se perde, eu detesto!

Graças à tecnologia disponível, já participei de alguns treinamentos virtuais muito interessantes pela empresa. No último, sobre a ferramenta de análise da intranet e da internet da empresa, participaram responsáveis por comunicação do mundo todo: alemanha, rússia, espanha, franca, EUA, áfrica do sul, china, japão... e eu na Índia. Com 1 clique, estávamos todos acompanhando a tela da mulher nos EUA que estava dando o treinamento, quase sem nenhum delay.

Devido ao fuso horário, quando chegamos às 18:00, começam as ligações internacionais e as conferencias. Aí é uma bagunça de telefones ao viva-vós, cada um com um sotaque diferente e os engenheiros se amontoando nos cubículos para participar da reunião.

Ambiente

O ambiente de trabalho também lembra muito o das grandes empresas em terras brazucas. O clima é amigável, hora ou outra se escutam algumas risadas, a parada do café é rotina, todo mundo se cumprimenta com um sorriso... Cubículos separam os funcionários fisicamente, mas a comunidade é dividida por algumas “tribos”. Têm os engenheiros juniors, novinhos, sempre juntos discutindo problemas nos seus softwares, as festas do ultimo fim de semana, o campeonato de cricket. Têm as meninas do RH, sempre juntas a dar risadinhas discretas. Os engenheiros seniors, que parecem mais ocupados sempre e tem um ar de mentores de seus times de juvenis.

Aqui em Bangalore, onde se concentram a força de P&D da empresa, o clima é bem mais informal que em Gurgaon e Mumbai, onde estão a maior parte da administração. Eu estou sempre de roupa social, mas as é comum ver a galera de jeans, chinelão de dedo, e umas camisas coloridas (daquelas da década de 70).

Ritmo de trabalho

Uma coisa que havia lido durante minha preparação para a Índia era que as coisas eram mais lentas. Realmente são e isso irrita as vezes, mas aí temos um diferencial: todos acham que eu entrego tudo muito rápido no trabalho.

O que me chama mais atenção é que tudo é bem arrítmico. A gestão de tempo não é muito o forte aqui. Os processos vão se acumulando num gargalo (geralmente alguém que tem que dar o “sinal verde” para seguir adiante) e depois, quando não há mais tempo, temos que correr com tudo pra entregar no prazo. Vou dar um exemplo fictício pra esclarecer:

Digamos que a empresa quer desenvolver uma estratégia para aumentar sua visibilidade ante aos universitários e atrair talentos – prazo: 1 mês para o fim das aulas e início das férias e formaturas. Aí eu sou chamado para montar o plano de comunicação. Eu faço um brainstorm, monto um documento com minha sugestão de plano e mando pra diretoria aprovar – faço isso em 1 semana. Meu documento provavelmente vai ficar parado nas mãos de alguém, que só vai me responder com feedbacks faltando poucos dias pro início das aulas. Aí eu tenho uma semana de cão pra colocar tudo funcionando dentro do prazo. Por isso as vezes tenho semanas tranqüilas e chatas, e depois vem uma tempestade de coisas pra resolver.

Comida

Como todos os dias no “bandejão” da empresa, junto com todos os outros funcionários: gerentes, diretores, engenheiros, todo mundo. Eu como a comida do buffet, custa 35 rupias (pouco menos de 1 dolar). A comida é vegetariana, mas eu gosto. Todos os dias tem: 1 sobremesa, 1 ou 2 tipos de pão (sem fermento) arroz branco, arroz cheio de tempero, 2 ou 3 “ensopados” ( a comida indiana geralmente tem muito molho), salada de pipino, sopa e um salgadinho de arroz frito (tipo chips).

Eu como quase de tudo, mas às vezes tem surpresas ruins... Um exemplo: eu adoro batata. Quando tem ensopado de batata eu loto o prato. Outro dia coloquei um monte! Molho vermelho com pedaços de batata cozida. Na primeira garfada, descobri: era abacaxi!! Hurgh!

Muita gente traz comida de casa, vêm com as vasilhinhas tapperware e esquentam no microondas. Eu vou levar comida de vez em quando, já que sempre faço a janta em casa.

Tenho utilizado meu tempo no escritório como pesquisa também. Pra quem ainda não sabe, estou escrevendo um livro sobre como fazer negócios na Índia, espero publicar o livro assim que voltar para o Brasil, início de 2009. Lá vocês vão encontrar outras curiosidades do mundo dos negócios indiano.

(english version)

Working in India

I’m not in India as a tourist. So, let me write a little bit about my job here. As I wrote before, I’m working at Alcatel-Lucent as Communication Executive.

I’m really enjoying because the challenge is quite big. The telecommunications/networking market is extremely competitive and is growing at giant steps in Asia. Every week there is a new deal being made with millions or billions of dollars on the table. Companies compete “nose by nose” for positions in the market and the war for talents and technology is intense.

As if that was not enough challenge, Alcatel-Lucent is the result of a merger of giants (the French Alcatal and the American Lucent Technologies), becoming the largest communication technology company in the globe. With the merger of 2 giants a new corporate identity was created: is no longer Alcatel and no longer Lucent Technologies, but Alcatel-Lucent. If it was only changing names, would be all right – but we are talking about a whole new organizational culture and the perception over it.

My job is directly linked to spreading this new identity internally (to all the employees) and externally (to media, clients, future employees, etc). I’m very satisfied because I’m assuming responsibilities and projects that I could not imagine having in my hands at this point of my career. I work closely to the Leaders of the company and I’m the only person of the Corporate Communications team in Bangalore, where is concentrated the majority of the R&D employees of India.

Well, instead of just write about what I’m doing here, I think is more interesting tell you some curiosities about the work environment:

Meetings

Just like in Brazil, there are lots of meetings: to follow-up projects, brainstorm over new ideas, proposal presentations, etc. At the meeting there are always someone chairing and someone taking notes for the meeting minute; all well organized. At the beginning my biggest problem was to understand the Indian accent – sometimes I just got lost during the meetings and I could swear they were not speaking English. Now it’s ok, I can follow the whole meeting and also give my perceptions – then is their time to struggle to understand my accent. Lol.

What I really hate are the conference calls. As we are at many different locallities in India and I’m envolved in projects across the country, I have to join conference calls frequently.
Then it’s a mess! The accent is even harder to understand over the phone, everybody speaks at the same time, the topics are not followed; I hate it!

Thanks to technology available I already joined some very cool virtual trainings through the company. The last one was about the analysis tool for company’s intranet/internet sites. There were people from all over the world, responsible for communication: Germany, Russia, Spain, France, USA, South Africa, China, Japan… and me in India. By just clicking a button we were all sharing a common screen and a lady from US was teaching us how to use the tool – almost without delay.

Because of the time-zone when is 6pm in the office the international conference calls start. Then it’s a big confusion with all the phone on loud-speaker each one with an accent from somewhere in the world, engineers getting together around a computer screen and joining the meeting.

Environment

The work environment also resembles the one we find in big companies in Brazil. People are friendly, from time to time you hear some laughs, the coffee break is routine, and everybody salutes everybody with a smile… The cubicles separate the employees physically, but the community is divided by some “tribes”. In one corner you have the junior engineer: young, always together discussing problems in their softwares, the parties of last weekend and the cricket championship. In another corner you find the ladies from HR, always together and laughing with discretion. The senior engineers always look more busy and act as mentors of their juvenile team.

Here in Bangalore, where is concentrated the company’s R&D work-force, the environment is more informal than Gurgaon and Mumbai – where is the majority of the corporate/management people. I’m always dressing formal but is quite common to see employees with jeans, flip-flops and colorful shirts (like those from the 70s).

Work Pace

One thing that I read during my preparation to come to India was that processes were slow. That’s true and sometimes can get on your nerves, but then it gives us an differentiation: people think that I deliver things very fast at work.

What gets my attention is the arrhythmic pace. Time management is not something practiced everywhere. Processes get accumulated in a bottle neck (usually someone at higher level who needs to provide “green light” so I can move on) and then, when there is no time, we have to rush with everything to be able to deliver on the deadline. I’ll give one fictitious example to clarify:

Let’s say the company wants to develop a strategy to increase its visibility over students and attract new talents – timeframe: 1 month. Then they ask me to create the communication plan. I do a brainstorm session, create a document with my suggestion and send it to be approved – I do that in 1 week. My document will be sitting in someone desk and I’ll receive feedbacks and the “go ahead” days before the deadline. Then I have week working as in hell to put up everything on the deadline. That’s why I have some boring and calm weeks and then suddenly a storm of activities comes.

Food

I eat everyday at the company’s cafeteria together with all the other employees: managers, directors, engineers, everybody. I eat the food from the buffet – it costs 35 rupees (less than 1 dollar). The food is vegetarian but I really like. Everyday there is: 1 desert, 1 or 2 kinds of Indian bread, plain rice, a rice full of spices and vegetables, 2 or 3 gravies (Indian food is full of gravies), salad, soup and a fried snack.

I eat almost everything (even not knowing what it is), but sometimes I have bad surprises… One example: I love potatoes. When there is a gravy with potatoes I fill in my dish. Some days ago I served a lot of it. It was a red gravy with cooked potatoes within. At the first bite the surprise: it was pineapple!! Hurgh!

Many people bring food from home. They come with their tapperware plastic containers and heat the food on the microwave. Someday I’ll bring food from home also – as I always cook dinner at home.

I’ve been using my time in the office as research also. For those who doesn’t know yet, I’m also writing a book about how to do business in India. I’m planning to publish it as soon as I get back to Brazil – beginning of 2009. In the book you’ll find other curiosities from the India business world.

Friday, May 2, 2008

Futebol na Índia

Durante o mês que passei em Gurgaon morri de vontade de jogar futebol, mas so achei cricket mesmo… Pra minha felicidade, em Bangalore muita gente joga futebol. No estacionamento da empresa tem um campo - com uma arvore no meio, meio terra, meio grama alta, mas um campo.

O pessoal joga todo dia no fim da tarde, eu jogo quando tenho tempo. Quando disse que era brasileiro todos ficaram com caras de bobo, hehehe. É o poder da amarelinha.

Um tempinho atrás, o Jaime e um amigo indiano resolveram organizar um jogo amistoso. Índia contra o Resto do Mundo. Foi muito legal! O time indiano treinava todos os fins de semana, nós nos conhecemos 20 minutos antes do jogo. :P

Placar final Resto do Mundo 7 x 2 Índia. Nosso time era Ed (Inglaterra), Mark (Alemanha), Ian (Camarões) e Djaew (Camarões), Jaime (Portugal), Preetham (Índia) e eu (Brasil).

Depois desse amistoso, montamos um time na empresa e entramos para um campeonato amador daqui de Bangalore. Na primeira fase nos classificamos em segundo do grupo e eu era o vice-artilheiro do campeonato. No fim de semana seguinte, jogamos muuuito mal e perdemos nas quartas de final, para um time muito inferior ao nosso.

Agora é planejar o campeonato interno da empresa... :)


Resto do Mundo 7 x 2 India

Jogo num campo parecido
(English version)

Football

During the month I spent in Gurgaon I was dying to play football but could only find people playing cricket. To my good surprise in Bangalore there’s lots of people playing football. At the parking lot of my company we have a pitch – there’s a tree in the middle, half is dust, half is high grass but it is a pitch.

The guys play everyday in the evening; I play when I have time. When I said I was Brazilian all of them got excited to play with me. Is the power of the little yellow (the Brazilian team jersey).

Some time ago Jaime and an Indian friend decided to organize a friendly match: India versus The Rest of the World. The game was very cool! The Indian team practice every weekend – in our team we got together for the first time 20 minutes before the match.

Final score: Rest of the World 7 x 2 India. Our team was comprised by: Nosso time era Ed (Inglaterra), Mark (Alemanha), Ian (Camarões) e Djaew (Camarões), Jaime (Portugal), Preetham (Índia) e me (Brasil).

After this friendly match the guys formed a team inside the company and we joined a amateur tournament here from Bangalore. On the first stage we qualified as 2nd of the group and I was the 2nd best scorer of the tournament. On the next weekend we played soooo badly and we lost to a team very inferior to ours.

Now we need to plan the company internal tournament… :)